“A televisão não foi feita para negros e indígenas, e sim para a reprodução do modo de vida branco ocidental”

“A televisão aberta e a sua forte contribuição na formação de imaginários, tem grande responsabilidade neste apagamento das culturas e produção de saberes de origem afrodescendente”, afirmou o professor e jornalista Richard Santos, na abertura do I Encontro Estadual de Jornalistas e Comunicadores pela Igualdade Racial (EEJIRA) – Seminário Final do Curso Abdias Nascimento. O evento, realizado no dia 7 de dezembro, no Centro Cultural Belchior, integrou a abertura da programação do IX Congresso Estadual dos Jornalistas do Ceará.

Autor do livro “Branquitude e Televisão: A Nova África (?) na TV pública”, Big Richard, como é conhecido no movimento Hip Hop, falou sobre a representatividade da população negra na televisão brasileira. “A construção da percepção sobre a televisão também está permeada por minha negritude (…) Deste lugar, penso que a televisão não foi feita para negros e indígenas, e sim para a reprodução do modo de vida branco ocidental, concretização da branquitude, manutenção de poder de uma minoria”, pontuou.

Santos observou que a “TV é feita por profissionais das classes médias, hegemônica e majoritariamente brancos, que pautam os seus temas e os apresentam como de interesse geral, descartando o que lhes parece irrelevante”. “Esse olhar define os conteúdos e os sujeitos a ele referidos o que consubstancia e naturaliza a brancura ou branquidade como representação humana temática”, disse o jornalista, que trabalhou na Rede Globo, TV Band, TV Cultura, MTV, Record, entre outras emissoras.

A disputa pelo domínio dos signos que formam a imagem, a estética política e de suas significações resumem, segundo Santos, a luta pelo poder. “É disso que se trata quando vimos a ausência de sujeitos negros na televisão, principalmente, em situação de dignidade. É mais diretamente relacionado a isso o que assistimos quando a maioria dos personagens negros em uma novela ou série está associada ao crime e à marginalidade”, explicou o professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Santos lembrou que foi a formação do imaginário social, a construção da representação do negro como negativo e perigoso e a consolidação deste processo racial alijador vindouro desde a formação do Estado brasileiro, que não muda e se traduziu nas imagens e/ou negação das imagens e na estética repercutida pela mídia televisiva em âmbito nacional. A invisibilização das diversas histórias do povo afrodescendente, tanto na academia quanto nos meios de comunicação, ocasionou a naturalização do extermínio da população negra diante das câmeras de televisão e páginas de jornais.

“Ficam inertes diante do fuzilamento televisionado de jovens que saiam para passear num final de semana a tarde – jovens negros; do estudante de medicina que voltava para casa após a aula – homem negro; da dona de casa arrastada como latas de goiabada pelo carro da polícia – mulher negra; do fuzilamento sumário e decaptações de seus corpos por membros das forças de  segurança do Estado – corpos de indígenas que lutavam por suas terras; intimidação de militares a comunidades tradicionais – povos quilombolas; e por
final, mas não por último, o assassinato de uma vereadora numa das mais importantes capitais brasileiras – mulher negra”, frisou Richard Santos, enumerando casos concretos.

Contra este processo de exploração histórico denunciado, o pesquisador afirmou surgir uma série de políticas públicas de inclusão: “jovens articulados denunciando, criando alternativas e se empoderando”. “Ainda assim, é preciso mais; é preciso que também os não negros articulem ações e reflexões sobre si, seu lugar social e acreditem na ‘comunização’ de suas atitudes, criações, e percepções. Desconstruir o que tem sido erguido por séculos e que se transforma numa espécie de terrorismo de Estado, leva tempo e requer a ação e unidade daqueles que creem numa sociedade mais igualitária e plural”.

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