16 de setembro de 2008
A quem interessa a desregulamentação da profissão de jornalista?
A desregulamentação representaria o fim da organização dos jornalistas como trabalhadores, o fim da sua organização sindical, a quebra da sua influência e de poder para contestar, inclusive, os próprios patrões. A desregulamentação representaria o caos.
A quem interessa o fim do jornalismo profissional? A quem interessa a quebra da força do jornalismo - e aqui visualizamos os jornalistas na condição de olhos, ouvidos e voz da população - como escudo da sociedade e instrumento de transparência dos poderes político e econômico, assim como das organizações sociais? Qualquer um, menos preparado na formação do conhecimento e nos princípios, poderia sair por aí com um crachá no peito - impresso em qualquer copiadora - apresentando-se como jornalista e com salvo-conduto para injuriar, difamar, extorquir, cometer leviandades.
Sem a regulamentação, que tipo de jornalismo seria feito? Que nível de jornalismo mereceria crédito? Isto seria jornalismo profissional? O jornalismo brasileiro - com especial vocação para a investigação - sobreviveria com a desregulamentação? O jornalismo no Brasil avançou com o avanço da tecnologia. O jornalismo sempre foi melhor do que se fazia antes, nunca o contrário. É inimaginável pensar ou querer que a tecnologia avançasse, mas os jornalistas fossem os mesmos dos anos 20, 30 ou 40. Ou que jornalismo fosse ainda uma atividade dividida entre a boemia e o amadorismo.
As novas mídias são espaços de ampliação do mercado de trabalho, mas exigem também a profissionalização - ou seja, a formação - para ter qualidade e merecer crédito. Sem isso e sem ética, não há bom jornalismo.
Por isso e pela sociedade, somos contra o fim da regulamentação profissional. Somos a favor da formação específica, do domínio da técnica e do acúmulo do conhecimento. Isso não significa simples corporativismo, coisa que se encontra também em qualquer categoria. Falamos do direito da sociedade a ter acesso às informações de crédito, com qualidade.
Se democratizar a comunicação for sinônimo de desregulamentar a profissão de jornalista, permitindo que qualquer um, mesmo que bem intencionado, mas sem capacidade e sem compromisso ético, saia causando dano à sociedade, somos contra; se democratizar a comunicação for permitir que qualquer um saia se apresentando como jornalista para utilizar a liberdade de imprensa como "um bom negócio", somos contra.
Coincidência ou causa, a violência contra jornalistas em países latino-americanos onde não há regulamentação profissional tem caráter generalizado. Tanto quanto no Brasil, são países com enraizada cultura de violência, porém, sem instituições consolidadas no estágio em que se encontram as do Brasil. O resultado tem sido mortes, seqüestros e atentados a jornalistas. Sem regulamentação profissional e sem formação específica superior, são alvos de represálias e vinditas. Liberdade de imprensa sem uma profissão regulamentada é fatalmente confundida com "o tudo pode", o "sem limite".
Coincidentemente, também, países latino-americanos mais próximos do Brasil em regulamentação, capacitação e credibilidade no jornalismo são exatamente os que valorizam a formação específica. Argentina e Venezuela têm a organização dos jornalistas em nível superior à da maioria e próxima da organização no Brasil. Não há, enfim, argumentação de boa-fé que justifique o assassinato de uma profissão. Seria um dano sem limites à sociedade, um salvo-conduto para a destruição de conceitos, honras e imagens, com o absurdo de que os autores não teriam o que temer. Se o jornalismo organizado é capaz de causar dano irreparável, imaginemos ele em plena desordem. A quem interessa isso?


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