A Associação Nacional de Jornais (ANJ) completa 30 anos de vida. A entidade foi fundada em uma reunião na sede do jornal O Dia no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1979, o seu primeiro presidente foi Roberto Marinho. Agora, em homenagem ao seu aniversário, a entidade publica uma “autobiografia”, homenageia o deputado responsável pelo fim da Lei de Imprensa e faz cara de paladino da liberdade de imprensa. Pena que a prática da entidade desmente suas boas intenções.
O que está oculto por detrás do discurso democrático é uma instituição criada para defender a “liberdade de empresa”. Todo o mais é mero acessório para dignificar seu verdadeiro objetivo.
Alberto Dines afirma categoricamente (como pode ser lido tanto em seu Observatório da Imprensa como em matéria especial publicada no Unidade nº 316) que a ANJ foi a resposta patronal à greve que os jornalistas de São Paulo realizaram no início do mesmo ano. Na verdade, os jornalões não fizeram nenhum movimento organizado para combater a censura. Esse enfrentamento foi mérito da imprensa alternativa e alvo de ações isoladas de alguns jornais (como a publicação de receitas culinárias ou versos de Camões pelo O Estado de S. Paulo). Além do mais, a censura havia terminado um ano antes da criação da entidade e, como foi amplamente divulgado no episódio da “ditabranda”, envolvendo a Folha de S. Paulo, os grandes órgãos de comunicação apoiaram o golpe de 1964 e só se desiludiram definitivamente com os generais às vésperas do movimento das Diretas Já.
Se este é o pano de fundo político, a questão econômica também teve sua importância na criação da entidade. Judith Brito e Ricardo Pedreira, diretores da entidade e autores do livro-homenagem admitem que “Historicamente os jornais brasileiros eram desunidos e, por razões de mercado, tendiam sempre a privilegiar o enfrentamento de seus concorrentes, em vez de buscar a defesa dos interesses comuns”. E as razões de mercado no final dos anos de 1970 não eram as melhores.
Se em São Paulo os donos de jornais enfrentavam o movimento sindical, no Rio de Janeiro o mercado de jornais era o problema. Pesquisa da professora Marialva Barbosa (História Cultural da Imprensa) indica um momento de crise. No início dos anos de 1970, o Rio de Janeiro era o quarto mercado nacional de jornais, atrás de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais; em 1950 circulavam 22 jornais diários no Rio, em 1960 o número cai para 16 e, no final dos anos de 1970, havia apenas 7 diários, com predomínio de 3 (O Globo, O Dia e o Jornal do Brasil).
Outra característica desse período é o início da implantação das novas tecnologias, que abrange a popularização da impressão colorida até o uso em massa de computadores, características que mudariam o mercado de trabalho dos jornalistas nos anos seguintes.
Essa conjuntura exigiu que as empresas abandonassem o amadorismo da administração familiar e se transformassem em empresas regidas sob a ótica da “racionalidade capitalista”. A criação da entidade foi o caminho encontrado pelo empresariado da comunicação para enfrentar os novos tempos (inicialmente a ANJ reuniu os jornais O Dia, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Zero Hora, Correio do Povo, A Tarde, O Povo e Jornal de Brasília).
Tudo isso foi temperado com o discurso da liberdade de imprensa e expressão, mas, desde o início, seu objetivo era a defesa de seus interesses econômicos. Essa postura empresarial é legítima no capitalismo, o que não é correto é mistificar a idéia de liberdade em nome desses interesses. Como se vê, foi por absoluta coerência com seus ideais que a ANJ abandonou a participação na organização da Conferência Nacional de Comunicação.
Agora é o momento de os jornalistas, conhecendo essa história, assumirem para si a verdadeira idéia da liberdade de imprensa.
Por Guto Camargo
Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo