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26 de agosto de 2009

Descanse em paz



Por Gervásio de Paula

Partindo-se do principio de que o valor do ser humano depende de sua capacidade de trabalho, o País, em particular o Ceará, perdeu há cinco dias, em Brasília, onde estava radicado há muitos anos, um de seus mais valorosos profissionais do jornalismo, da literatura e da militância política: Luciano Barreira. O talentoso autor do romance "Os Cassacos", publicado em 1974, sobre a saga dos nordestinos em suas lutas titânicas e desiguais no Nordeste, deixou um legado literário que merece ser preservado e relido ou lido por quantos cultuam a literatura de "cabeça chata" das mais diversas intempéries.

A vida de Luciano Barreira sempre foi voltada para as lutas mais identificadas com o padecer do brasileiro pobre e desprotegido. Fosse ele da cidade grande ou do campo. Mais ainda do campo onde plantou as suas raízes como trabalhador braçal ou como integrante do Partido Comunista do Brasil (PCB), cuja filosofia consistia na dedicação mais intensa no sentido de elevar o nível de consciência política dos assalariados, sempre subjugados às suas necessidades diárias. O PCB também se preocupava bastante com a preparação da sociedade - em função da qual todos sobrevivemos - na busca de um mundo mais humano.

Percorreu o mundo, cumprindo tarefas do Partidão, sem nunca esquecer de colher experiências para adaptá-las à realidade brasileira, criando, assim, condições sociais onde todos tivessem as mesmas condições de sobrevivência e idênticas oportunidades de trabalho.

Em sua obra literária deixou claro o seu profundo sentimento de solidariedade aos mais humildes e a sua capacidade de conviver com os contrários, sem preconceito, sem rancor e sem mania de passado, como diz Paulinho da Viola em uma de suas mais belas canções.

Para o autor de Sementes de Tempestade, Para Além do Amanhecer, O Brasileirinho que Sonhava com a Felicidade, O Pitoresco da Coisa Séria e outras obras, a informalidade na linguagem estava sempre presente e era uma constante em seus diálogos a leve doçura de quem soube captar os sentimentos de sua gente humilde.

O jornalista, escritor e deputado federal Fernando Gabeira falando do Em Busca do Amanhã diz que "insiro esta obra, mesmo sob forma de romance, nesse enorme esforço para conquistar mentes e corações em torno do grande movimento ambientalista de salvar o Brasil e salvar o planeta".

Já o jornalista e escritor Frota Neto, com quem fizemos, ao lado de Luciano, o livro Amazônia Retalhada, pela gráfica do Sindicato dos Jornalistas de Brasilia - obra pioneira em denúncia da devastação de nossas florestas - relata: "Que a semente plantada por Em Busca do Amanhã, para usar a linguagem ´contemporânea´ do ´crescei e multiplicai-vos´, se reproduz - numa sequência continuada e ininterrupta - por cada um que deve se sentir responsável pelo amanhã de calendário e pelo Amanhã chamado Futuro".

Diz-se com certa propriedade que ao morrer uma pessoa mais íntima nossa, morre um pedaço de nós mesmos. Não tem quem se conforme com a doença de um ser humano - precisa ser muito insensível - quanto mais com a morte desse ente. Em particular quando ela leva uma vida constantemente inserida na incansável luta de seu povo. De uma forma ou de outra, dando, por menor que seja a colaboração, para a construção de um mundo novo e a sociedade ficar mais respirável a todo ente produtivo e cultivador do carinho ao próximo e cultivador do amor ao mundo e à natureza mãe. Isso o Betinho repassou com muita propriedade até seus últimos instantes de vida.

Conheci Luciano Barreira no PCB. Na década de 60. Aproximei-me mais umbilicalmente dele através de seu irmão Américo Barreira, o também saudoso e modesta lente em municipalismo brasileiro. Conheço a obra do escritor como quem conhece um olho d´água numa floresta pouco devastada. Ele narra as suas experiências como quem botou batom nos lábios da aurora procurando, sem necessidade desse artifício, torná-la mais bela. Tudo é quase cristalino. E, acima de tudo, sua luta pela preservação da natureza que o famigerado bicho homem degenera cotidianamente.

Descanse em paz Luciano. É o desejo de todos os homens de bem - não confundir com homens de bens - por tudo que você fez por nós modestos sobreviventes deste planeta.
Postado por autor: sindjorce em   Sem categoria.  marcador Tags  gervásio.

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comentários

27/08/09 » Nelson Serra e Neves comentou:

Conheci o Luciano e o Américo Barreira através de você, nas nossas andanças etílicas pelos bares do centro, em épocas que poderíamos transitar qualquer hora do dia e da noite sem medo de sermos abordados pelas " vítimas do capitalismo selvagem".,conforme dizia o Luciano . Gervásio, junte à sua dor, a minha solidariedade e que ele descanse em paz longe deste degenerado planeta.que o "bicho homem degenera cotidianamente", fazendo de minhas as suas palavras.

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