7 de janeiro de 2011
Jornal O Povo completa 83 anos censurando e perseguindo jornalistas
O Povo, jornal mais antigo do Ceará, completa 83 anos nesta sexta-feira (07/01). Mas parte dessa história não tem sido contada nas páginas do veículo de comunicação mais tradicional do Estado, particularmente a que diz respeito à relação do jornal com os seus jornalistas. Leitores e assinantes não sabem, por exemplo, que no Relatório 2010 sobre Violência contra Jornalistas, documento produzido anualmente pela Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), o jornal O Povo aparecerá como campeão de denúncias.Dos sete casos de violência levantados no ano passado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), três foram cometidos por empresas do Grupo O Povo de Comunicação contra seus empregados. Demissão ilegal de dirigentes sindicais, impedimento de diretores do Sindjorce de voltarem ao trabalho após o término do mandato e até mesmo censura explícita contra profissionais de imprensa marcaram a história recente do O Povo. No entanto, nenhuma dessas notícias chegou ao conhecimento de assinantes e leitores que comemoram hoje mais um aniversário do jornal.
Em nome do sagrado direito à informação, o Sindjorce e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) aproveitam o aniversário do jornal para "presentear" o grande público com notícias lamentáveis que jamais serão publicadas no O Povo. "Há de se ampliar o conceito de violência, hoje reduzido a prática da agressão física. A violência moral, política, invisível, como, por exemplo, impedir jornalistas de exercerem o direito de trabalhar pelo simples fato de serem sindicalistas ou de censurar suas matérias e opiniões, é uma prática repugnante que deve ser condenada por toda a sociedade brasileira", analisa o presidente do Sindjorce, Claylson Martins.
Leia também relatos de violência cometida pelo jornal Diário do Nordeste contra jornalistas, além de assaltos no exercício da profissão, agressões policiais e políticas.
Prática Anti-sindical
O Povo impede ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de voltar ao trabalho
Por meio de um ofício, o jornal O Povo comunicou ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) que não aceitaria de volta à redação a jornalista Déborah Lima, funcionária daquela empresa há 16 anos. Déborah foi presidente do Sindicato por dois mandatos (2004-2007 e 2007-2010) e diretora executiva da Central Única dos Trabalhadores no Ceará (CUT/CE). Atualmente ela é tesoureira da Federação Nacional dos Jornalistas e diretora de Comunicação Social da Associação Cearense de Imprensa (ACI). Ao impedir a dirigente de retornar ao trabalho, o jornal incorre em prática anti-sindical, à medida em que proíbe uma profissional premiada e respeitada no mercado jornalístico de voltar à sua redação, numa clara tentativa de afastá-la da sua base.
O presidente do Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas (Sindjornais), Mauro Sales, advogado do jornal O Povo, chegou a afirmar que a ex-presidente do Sindjorce "não era bem-vinda" pelo O Povo, contariando declarações do editor de Déborah, Gualter George, e de seu editor adjunto, Érico Firmo, que intermediaram, sem sucesso, o pedido de retorno da repórter de Política à redação. Mauro Sales também tentou condicionar o andamento da negociação salarial da categoria, na Campanha salarial de Impresso 2010/2011, ao afastamento de Déborah Lima da empresa.
Durante a sua gestão à frente do Sindjorce, Déborah Lima comandou manifestações contundentes contra práticas anti-sindicais, achatamento salarial, banco de horas, redução de direitos dos jornalistas e diversos desmandos do patronato do Ceará. Também protagonizou lutas em defesa do cumprimento das convenções coletivas de trabalho dos empregados de veículos impressos e eletrônicos, além de protestos em prol da exigência de diploma para jornalistas e do exercício legal da profissão no Estado.
O Povo demite jornalista que se candidatou ao Sindicato
O repórter fotográfico Evilázio Bezerra, um dos mais premiados do Ceará, foi demitido do jornal O Povo, em abril de 2010, de forma arbitrária e ilegal, após a empresa tomar conhecimento de que ele era candidato à Diretoria Executiva do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), pela Chapa 1 - Sindicato de lutas, conquistas e esperança. A atitude da empresa vai de encontro ao artigo 8º da Constituição Federal (inciso 8º) e ao artigo 543 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que impedem a demissão de empregados candidatos a cargos de direção sindical.
Empregado do jornal há 16 anos, Evilázio Bezerra foi vítima de perseguição política e conduta anti-sindical, prática comum no jornal O Povo, que também demitiu o diretor do Sindicato dos Gráficos, Juarez Alves, um dos líderes da greve conjunta das duas categorias em 2009. As ações deliberadas têm o claro objetivo de desestimular a participação dos trabalhadores nas ações do sindicato, o que constitui flagrante ataque à liberdade sindical. Demitir empregados por perseguição política ao sindicato constitui crime condenado por leis internacionais de proteção ao trabalho e ato de extrema violência contra a livre organização dos trabalhadores.
A prática anti-sindical de O Povo repercutiu na Câmara Municipal de Fortaleza, motivando pronunciamento dos vereadores Ronivaldo Maia (PT) e João Alfredo (PSOL). Sobre a demissão, o Sindjorce, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato dos Gráficos do Estado do Ceará (Sintigrace) publicaram nota conjunta de repúdio, no dia 17 de maio de 2010, e realizaram manifestação de grande repercussão durante almoço oferecido pelo jornal O Povo ao então candidato à Presidência da República, José Serra (PSDB).
Censura
Apresentadora da rádio AM do Povo é obrigada a se "retratar"
A apresentadora do programa Revista, Alexandra Souza, veiculado pela rádio AM do Povo/CBN, foi "convidada" a se retratar após comentário feito sobre a ameaça de greve dos motoristas e cobradores de ônibus de Fortaleza (CE), marcada para o dia 12 de agosto. Ao comentar explicação da Prefeitura sobre a greve, a jornalista disse que a nota deixava subentendido que estaria havendo pressão de uma das partes para que o movimento acabasse impondo aumento no valor das passagens e citou o Sindicato das Empresas de Ônibus (Sindiônibus) como a fonte desse interesse. O sindicato patronal dos rodoviários, então, exigiu uma retratação da apresentadora, numa clara atitude de coação e cerceamento à liberdade de expressão. Como não havia programa no fim de semana, Alexandra teve de ir pessoalmente ao estúdio da rádio AM do Povo CBN, no sábado, dia 7 de agosto, para se "retratar".
Sobre o caso, o Sindjorce publicou a seguinte nota em seu site, no dia 12 de agosto de 2010: "O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) repudia toda e qualquer tentativa, seja de representantes dos veículos de comunicação ou de qualquer segmento da sociedade cearense, que objetivem o cerceamento à liberdade de imprensa de profissionais e de limitação do sagrado direito de opinião do cidadão, como também exige da direção da rádio AM do Povo/CBN e do Sindiônibus explicações formais quanto a denúncia de que houve pedido de ‘retratação', lembrando que, ao atacar a liberdade de expressão, as elites não desrespeitam apenas os ouvintes e os profissionais de imprensa, mas ferem de morte a democracia no Brasil."
Editor do Diário do Nordeste é demitido por fazer matéria sobre Marxismo
O jornal Diário do Nordeste demitiu de forma arbitrária, no dia 18 de outubro de 2010, o jornalista Dalwton Moura, por ter escrito e editado matéria no Caderno 3 sobre as revoluções marxistas que marcaram os séculos XIX e XX. O caderno especial, de seis páginas, desagradou à direção da empresa, que o considerou "panfletário" e "subversivo", além de "inoportuno ao momento atual" (eleições presidenciais).
Tendo, entre outras fontes, o filósofo Michael Löwi, que veio a Fortaleza para lançar o livro "Revoluções" (com imagens que marcaram os movimentos contestatórios decisivos para a história dos últimos dois séculos), a reportagem foi pautada pelo editor-chefe do jornal, Ildefonso Rodrigues, tendo sido sugerida pela historiadora e professora Adelaide Gonçalves, da Universidade Federal do Ceará (UFC). No entanto, ao comunicar a demissão do jornalista, seu superior disse que "não sabia o conteúdo da reportagem até vê-la publicada", mesmo tendo participado de reuniões de pauta que antecederam a publicação.
Sobre o assunto, que gerou grande repercussão nacional, inclusive em sites como Comunique-se e Portal Imprensa, o Sindjorce emitiu nota, afirmando que "a demissão do então editor do Caderno 3 expõe o abismo entre o discurso da grande mídia conservadora, que se diz ameaçada em sua liberdade de expressão - inclusive atacando com este falso argumento o projeto do Conselho de Comunicação do Estado -, e suas práticas cotidianas, restritivas ao exercício profissional dos jornalistas, bem como à livre opinião de colaboradores e leitores". "O Sindicato dos Jornalistas do Ceará protesta contra esta demissão arbitrária e mantém sua luta pela verdadeira liberdade de expressão para os jornalistas e para todos os brasileiros, manifestada em projetos como o do Conselho de Comunicação", afirmou o presidente do Sindjorce, Claylson Martins
Violência
Repórter da TV Diário é assaltado no Vicente Pizón após assassinato de motorista do DN
A repórter Pamela Lemos, da TV Diário, foi assaltada por adolescentes, na manhã do dia 10 de agosto de 2010, enquanto fazia uma reportagem no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza. Eles levaram seu colar, mas Pamela não sofreu ferimentos. Há cinco anos, no dia 26 de outubro de 2005, o motorista José Maria Ramos Silva, do jornal Diário do Nordeste, também foi assaltado no mesmo bairro. A ocorrência terminou de forma trágica, com o assassinato do profissional. Ele aguardava dentro do carro o retorno da equipe de reportagem, quando foi abordado por um homem, que disparou três tiros contra o motorista.
Sobre o caso, o Sindjorce publicou a seguinte nota, no dia 12 de agosto de 2010: "O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) continua cobrando dos veículos de comunicação e das autoridades medidas urgentes, no sentido de garantir segurança aos profissionais de imprensa, como também ao cidadão comum, expostos diariamente à violência urbana, fruto da ausência de políticas públicas de segurança no Estado do Ceará".
Correspondente do Diário do Nordeste é agredido por policiais
O correspondente do jornal Diário do Nordeste, Melquíades Júnior, foi agredido por policiais civis da Delegacia de Narcóticos (Denarc), no dia 19 de agosto de 2010, quando cobria protesto de trabalhadores rurais, no trecho da BR-116 em Russas, para marcar os quatro meses do assassinato do líder José Maria Filho, conhecido por Zé Maria do Tomé.
Segundo Melquíades Júnior, um policial avançou contra ele e, ao empurrá-lo com o braço, puxou sem conseguir capturar a câmera fotográfica, sacudindo-a quatro vezes em direção ao chão. "O policial gritou ‘saia da minha frente', avançou em mim, puxou a câmera com força, e se o equipamento caísse no chão certamente ficaria em pedaços. Mesmo assustado, eu ergui um braço em sinal de que não esboçaria qualquer reação, mas com a outra mão apenas continuava segurando a câmera pelo cordão, até que ele desistiu", conta o correspondente.
Repórter fotográfico é agredido por membro de coligação adversária
O fotógrafo Stênio Saraiva, freelancer da campanha do candidato Lúcio Alcântara (PR) ao Governo do Estado (da Coligação "Para Fazer Brilhar o Ceará"), foi agredido, no dia 24 de agosto de 2010, pelo ex-diretor do Departamento Estadual de Rodovias (DER), Quintino Vieira, quando estava em serviço, registrando a pintura ilegal de um muro na esquina da Rua Luís Samir Huley com Rua vereador Paulo Mamede (bairro Cocó), em Fortaleza.
"Primeiro ele quis saber de onde eu era, o que estava fazendo ali. Isso já com um tom exaltado. Quando ele quis pegar minha bolsa, não deixei e começou a agressão. A partir daí, vieram outras 15 pessoas. Eles chamaram o Ronda (do Quarteirão) e eu também", explicou o fotógrafo. Stênio, que disse ter sofrido socos no braço, prestou depoimento e se submeteu a exame de corpo delito, no 15º Distrito Policial.


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