27 de setembro de 2009
Sem alimentação adequada nas empresas, jornalistas reivindicam vale refeição
Cumprir pauta em um local. Depois, sair correndo para cobrir outro evento. Voltar para a redação e escrever duas matérias sem conseguir tempo para fazer uma refeição com calma. Essa é a rotina de centenas de jornalistas que trabalham em veículos impressos no Ceará. A categoria não tem direito a vale-alimentação. O benefício é uma das reivindicações da campanha salarial de jornalistas de jornais e revistas, cuja data-base é 1º de setembro. A minuta apresentada pela categoria pede a inclusão de 22 vales no valor de R$ 10,00 cada.
O Sindjorce ouviu profissionais dos dois maiores jornais sobre a importância dessa reivindicação para a categoria cujo piso salarial é inferior a três salários mínimos. O sindicato optou por não identificar os entrevistados para que eles não sofram qualquer tipo de retaliação. No jornal O POVO, não há nem sequer cantina ou refeitório para os trabalhadores. Isso faz com que muitas vezes o profissional tenha que sair da empresa para comprar uma refeição fora do jornal ou tenha que pedir alimentação em algum local que faça entrega. "A gente acaba gastando tempo quando poderia estar finalizando a matéria, sem falar que ficamos à mercê de lanches de qualidade nutricional duvidosa", explica um repórter do jornal.
Quem trabalha no expediente noturno tem ainda mais dificuldade em garantir uma alimentação de qualidade. "Não há opção saudável à noite. Muita gente prefere comer algo apenas em casa e se submete a trabalhar com fome", explica o jornalista. Nas noites do fim de semana, a situação é mais complicada ainda porque os profissionais não contam com a (visita da) pessoa que costuma passar vendendo lanches na redação do O POVO.
Os jornalistas do Diário do Nordeste têm a possibilidade de almoçar no refeitório da holding do Sistema Verdes Mares se aceitarem o desconto de R$ 15,00 mensais no contracheque. Os que trabalham à noite escolhem entre receber uma quentinha ou o equivalente a R$ 4,00 por dia em produtos disponíveis na cantina que funciona no prédio da empresa. Entretanto, essas opções não são o bastante. "A empresa tem que dar ao funcionário o direito de escolher onde comer. Além disso, um sanduíche natural e um suco custam R$ 4,50", critica uma jornalista do Diário. Ela avalia que seria muito melhor contar com um vale de R$ 10,00 por dia para fazer a refeição no local que preferir. "Tem dias que o pessoal foge do bandejão", ressalta.
O nutricionista Eduardo Gurgel explica que pessoas que ficam muito tempo sem se alimentar e que ingerem refeições que não são nutricionalmente corretas estão sujeitas a problemas de saúde a médio e longo prazo. "Fast food é deficiente em vitaminas, minerais e em fibras. Quem consome esse tipo de comida com freqüência está mais suscetível à gastrite, úlcera e hipertensão", avalia.
Depois de oito anos trabalhando como jornalista, Fernanda Moreira mudou de ramo e hoje tem garantido auxílio para alimentação. Funcionária do Banco do Brasil, ela recebe tíquete-refeição e cesta-alimentação. O primeiro é para garantir a alimentação individual do trabalhador e é recebido em restaurantes. O segundo, para colaborar na aquisição de alimento para a família do funcionário, é aceito em supermercados. "Se somar os valores dos dois, às vezes dá mais da metade do salário inicial. Há pessoas que escolhem reverter todo o valor para utilizar no supermercado", explica Fernanda Moreira. A jornalista destaca que esses benefícios são concedidos com o mesmo valor para o bancário recém-contratado ou para os que têm cargo mais alto.
O presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, Carlos Eduardo Bezerra, ressaltou que o auxílio refeição e o auxílio cesta alimentação representam uma parcela muito importante do orçamento familiar da categoria. Na campanha salarial de 2009, os bancários reivindicam auxílio-refeição de R$ 19,25 e cesta alimentação no valor mensal de um salário mínimo. "O objetivo desse tipo de benefício não é só garantir ração para o trabalhador. É necessário dar a ele o direito de escolher onde e com o que se alimentar", explica. Carlos Eduardo considera que profissionais que trabalham em trânsito (se deslocando), como os jornalistas, precisam ter esse direito. "Se a pessoa estiver fazendo uma pauta do outro lado da cidade tem de voltar para a empresa para fazer a refeição?", questiona.


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