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26 de maio de 2009

Manifestações de carinho e reconhecimento ao jornalista Gervásio de Paula

Colegas de profissão reverenciam o jornalista aposentado Gervásio de Paula, que na próxima terça-feira receberá uma homenagem especial do Sindicato dos Jornalistas, na Câmara Municipal de Fortaleza. Além dele, serão homenageados, a partir das 19 horas, em sessão solene, os jornalistas Guálter George e Izabel Pinheiro. Os três recebem uma homenagem antecipada do Sindjorce, por meio da divulgação de textos com depoimentos sobre cada um.

O jornalista aposentado José Gervásio de Paula será homenageado na próxima terça-feira no plenário da Câmara Municipal de Fortaleza juntamente com a chefe de reportagem do Diário do Nordeste, Izabel Pinheiro, e o editor executivo do núcleo de Conjuntura do O Povo, Guálter George. As homenagens serão prestadas pelo Sindicato dos Jornalistas no Ceará durante sessão solene em comemoração ao Dia do Jornalista e aos 56 anos da entidade.

Antes da homenagem oficial, o Sindjorce faz uma homenagem prévia aos três jornalistas, divulgando textos com depoimentos sobre eles dados por colegas de profissão.

Gervásio de Paula é o mais experiente dos homenageados - em idade e no ofício. Tem 68 anos e mais de meio século de batente. Começou no Jornalismo na década de 1950, na função de "aprendiz" de revisor no jornal O Estado, como se autodefine à época. Desde então, cumpre uma trajetória que inclui trabalhos como revisor, repórter, redator, editor, correspondente e assessor.

Primeiro editor do célebre Mutirão, pioneiro jornal alternativo no Ceará, Gervásio teve como companheiro nessa empreitada o jornalista Paulo Verlaine, também um dos fundadores do periódico, que circulou de 1977 a 1982 e serviu como porta-voz dos movimentos sociais e veículo de resistência ao regime militar em Fortaleza.

"Fase difícil. Além da paranoia que se vivia, tínhamos de enfrentar também as idiossincrasias das esquerdas e as intermináveis reuniões (uma delas durou oito horas, a famosa "oitona"). A experiência foi muito rica para nós dois. Mutirão também deve muito ao Gervásio", aponta Verlaine sobre o jornalista e o jornal fundado por intelectuais, profissionais liberais e militantes políticos. Ex-ombudsman do O Povo, atualmente repórter do núcleo de Conjuntura do jornal, Verlaine conhece Gervásio desde 1970, ou seja, há exatos 39 anos. "Uma existência", atenta.

O homenageado atuou em vários veículos locais e nacionais. No Ceará, passou pelos extintos Diário do Povo, Gazeta de Notícias e Tribuna do Ceará e pelos sobreviventes O Estado, O Povo e Diário do Nordeste. Trabalhou como correspondente dos jornais Em Tempo (de São Paulo), Tribuna da Imprensa e Opinião (do Rio de Janeiro) e Jornal do País. Foi free-lancer do Jornal do Brasil (em Brasília), redator da sucursal no Distrito Federal do Correio do Povo (de Porto Alegre) e do Correio Braziliense, quando cobriu o Congresso Nacional. "Ele teve passagem expressiva no jornalismo político de Brasília e se destacou numa área bastante concorrida", lembra Paulo Verlaine.

É um homem de jornal, mas também de rádio - atuou como redator nas rádios Uirapuru e Dragão do Mar. E também passou por revistas - foi editor da Revista dos Municípios do Ceará e correspondente da Caros Amigos. Do Jornalismo para os livros, Gervásio de Paula escreveu a biografia "Américo Barreira: Um Estadista do Municipalismo", e em parceria com os escritores e jornalistas Frota Neto e Luciano Barreira, o livro "Amazônia Retalhada".

"Através de Gervásio, privei da amizade de grandes nomes da imprensa cearense, tais como Odalves Lima, Durval Ayres e tantos outros, além de outras figuras que não pertenciam (nem pertencem) necessariamente ao Jornalismo, como José Domingos (publicitário), Audifax Rios (também publicitário), Américo Barreira (advogado, municipalista e vice-prefeito de Fortaleza na gestão Maria Luiza Fontenele), Ariosto Holanda (hoje deputado federal)...", acrescenta Paulo Verlaine.

Atualmente free-lancer do Diário do Nordeste, o jornalista Gervásio de Paula, ao concluir a extensa lista de atividades realizadas em mais de 50 anos de Jornalismo, faz uma inquietante, profunda, sábia, humilde e espirituosa observação: "rico de dúvidas". Logo ele, que serve de ensinamento a diferentes gerações do Jornalismo.

Para o coordenador do curso de Comunicação Social da UFC, jornalista Ronaldo Salgado, o homenageado é a expressão do autêntico Jornalismo. "Gervásio de Paula é daqueles profissionais que encantam pelo profissionalismo, chamam a atenção pela solidariedade e se destacam pelo compromisso e competência técnica no exercício do Jornalismo e pela exacerbada condição ética. Leva ao extremo da seriedade o mister de ser jornalista, não aceitando de forma alguma interferências no trabalho que faz que prejudiquem a sociedade. Vê o Jornalismo como um bem público, portanto, coletivo, e não como uma seara onde imperam interesses mesquinhos de grupos que dominam a comunicação", define Ronaldo, que conhece Gervásio há 30 anos.

Representante da boemia e exemplo de generosidade e profissionalismo

O convívio com Gervásio de Paula é de aprendizado e experiências curiosas. "Somos remanescentes do jornalismo boêmio (ele continua um boêmio de espírito, mas deixou de beber). Já vimos o dia amanhecer muitas vezes em bares e restaurantes de Fortaleza", relembra o colega Paulo Verlaine.

"Ao longo de quase quatro décadas, aprendi muita coisa com Gervásio. Além do talento, o que mais se destaca na sua personalidade é a generosidade, a insatisfação com as injustiças, o bom-humor muitas vezes cortante e o desprezo aos valores burgueses. Nesse último item, quero dar um testemunho. Certa vez, um bem-sucedido colega, que ingressou em área profissional bastante rentável, deu carona ao Gervásio. No caminho perguntou-lhe por que ele ainda não havia comprado um carro e lhe disse: ‘Gervásio, o carro faz-me sentir mais homem'. Resposta de Gervásio: ‘Rapaz, eu estou querendo comprar é um par de sapatos'", acrescenta Verlaine.

É esse jeito de ser, tão autêntico, espontâneo, desprendido, mas também cortejador, que conquistou a jornalista Ethel de Paula.

"Conheci o Gervásio porque ele quis me conhecer. Trabalhava na Redação do Diário do Nordeste e acho que minhas matérias chamaram a atenção dele, talvez por conta do sobrenome (olha que sorte a minha!). Ligou pra Redação, falou três ou quatro coisas engraçadas e galanteadoras ao telefone e pediu para marcarmos um encontro, que ele queria me conhecer. Assim foi feito. E a partir daí foram muitos brindes e conversas sobre o prazer do texto, a beleza das crônicas de Rubem Braga, o jornalismo alternativo em Fortaleza e a boa briga que ele capitaneou à frente do jornal Mutirão e, claro, sua atuação política como jornalista combativo e libertário, aonde quer que lhe fosse dado o direito de datilografar em defesa da democracia e direitos humanos", relata Ethel.

"Gervásio é um humanista nato e rebelde. E como tal, nunca mediu esforços para denunciar politicagens, roubalheiras, contravenções ou trapalhadas públicas. Fez isso ora com o bom humor que lhe é peculiar, ora tendo que cortar a própria pele, pedindo demissão, se fosse o caso, ou deixando de comprar o leite das meninas para gastar o minguado salário com mais alguns livros ‘imprescindíveis' para sua luta cívica feita com palavras e em nome do bem comum".

De nomes, sobrenomes e histórias para contar

Gervásio de Paula deu cria a duas jornalistas. As filhas gêmeas Giovana e Janaina seguiram a carreira do pai. Outros filhos da profissão, ele os formou afetivamente. Foi assim com Ethel... de Paula, cujo sobrenome já foi por muitas vezes motivo para uma boa confusão.

"Meu sobrenome passou a ter muito mais sentido pra mim após o dia em que conheci Gervásio de Paula. Ser Ethel de Paula, filha da Neide de Paula, já era de bom tamanho, mas imaginar que podia ser confundida publicamente com uma das filhas do Gervásio, por carregarmos esse sobrenome comum, sempre me encheu de orgulho. E aconteceu várias vezes, para minha felicidade. Quer dizer, pelo fato de sermos jornalistas e ‘vivermos em voz alta', assinando reportagens e crônicas nos jornais da cidade, sempre havia alguém que me perguntava sobre um possível parentesco com Gervásio".

Confusão feita, confusão mantida. "E eu, confesso, muitas vezes deixava no ar, nem negava, nem afirmava, só para meu bel prazer. O fato é que infelizmente não temos parentesco sanguíneo algum, mas acredito mesmo que sou uma autêntica De Paula da linhagem afetiva do Gervásio. É assim que me sinto, porque temos muito em comum. O gosto pela vida, pela rua, pelos botequins, pelo belo, pelo Jornalismo apaixonado, pelos livros, pela arte e, especialmente, o gosto em comum que temos por suas três filhas de sangue, Juliana, Janaina e Giovana, minhas amigas queridíssimas, gente da minha família, sem dúvida", revela-se Ethel. Pelo histórico elogiável, Gervásio é para ela um modelo de inspiração. "Ele é meu pai afetivo. Sou De Paula e família demais por causa dele".
Postado por autor: sindjorce em   Um Pouco de História.  marcador Tags  HomenagensEntrevistas.

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