Afastamentos por transtornos mentais crescem 68% e reforçam reivindicação dos jornalistas por apoio psicológico

Dados apresentados pelo Conselho de Comunicação Social evidenciam o avanço do adoecimento no trabalho; Campanha Salarial 2026 reivindica política permanente de saúde mental e Programa de Qualidade de Vida para os jornalistas

Entre as reivindicações da Campanha Salarial 2026, os jornalistas do Ceará defendem a criação de uma política permanente de apoio à saúde mental, com auxílio financeiro para atendimento psicológico. Imagem: Magnific

O Brasil registrou 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024, número 68% maior que o contabilizado no ano anterior. O tempo médio de afastamento chegou a 196 dias. Os dados, baseados em informações do Tribunal Superior do Trabalho (TST), foram apresentados pelo Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional durante debate sobre a saúde mental no setor da comunicação, realizado no primeiro semestre deste ano.

O crescimento dos afastamentos evidencia uma realidade que também atinge diretamente os jornalistas, submetidos a jornadas extensas, pressão constante por produtividade, excesso de demandas, dificuldade de desconexão e contato frequente com situações de violência, tragédias e sofrimento humano.

Diante desse cenário, a Campanha Salarial 2026 dos jornalistas do Ceará reivindica a criação de uma política permanente de apoio à saúde mental da categoria, com auxílio financeiro para atendimento psicológico. A proposta integra a pauta aprovada democraticamente pelos profissionais e reconhece que o cuidado emocional deve fazer parte das condições de trabalho oferecidas pelas empresas.

Durante o debate promovido pelo CCS, especialistas destacaram que a comunicação está entre os setores que mais demandam atenção em relação à saúde mental. No jornalismo, as condições de trabalho e a exposição frequente a acontecimentos traumáticos contribuem para o agravamento do adoecimento psíquico.

Estudos recentes reforçam esse cenário. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, em 2024, revelou que 84% dos jornalistas e 88% dos ex-jornalistas relataram problemas relacionados à saúde mental.

No Brasil, o levantamento Jornalismo no Brasil em 2025, desenvolvido pela newsletter Farol Jornalismo em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), identificou que profissionais de diferentes redações convivem com ambientes de trabalho marcados por sobrecarga, falta de empatia, comunicação violenta, desrespeito às folgas e pouca transparência nas relações de trabalho.

Pauta reivindica política permanente de saúde mental

A pauta da Campanha Salarial 2026 estabelece que as empresas criem uma política permanente de apoio à saúde mental dos jornalistas, com auxílio financeiro destinado ao atendimento psicológico.

A reivindicação parte do entendimento de que o adoecimento relacionado ao trabalho não pode ser tratado apenas como um problema individual. As empresas também devem assumir a responsabilidade de prevenir o sofrimento psíquico e garantir acesso ao acompanhamento profissional.

Para a psicóloga Deyseane Lima, o crescimento dos afastamentos demonstra que o problema precisa ser enfrentado coletivamente.

O aumento dos afastamentos por transtornos mentais evidencia que o adoecimento relacionado ao trabalho é uma questão coletiva e não apenas individual. No caso dos jornalistas, fatores como pressão constante, excesso de demandas, prazos curtos, contato frequente com situações de sofrimento e dificuldade de desconexão intensificam o risco de adoecimento mental, favorecendo quadros como burnout, ansiedade e depressão.”

Segundo a especialista, investir em prevenção é tão importante quanto oferecer assistência aos profissionais que já enfrentam algum tipo de adoecimento.

Os programas de promoção da saúde mental podem contribuir de forma significativa quando vão além de ações pontuais. É fundamental investir em ambientes de trabalho mais saudáveis, com gestão que valorize o cuidado, respeite os limites da jornada, promova espaços de escuta e facilite o acesso ao atendimento psicológico. Prevenir o adoecimento é uma responsabilidade compartilhada entre profissionais e instituições”, destaca a profissional.

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), Rafael Mesquita, incluir medidas voltadas à saúde mental na Campanha Salarial 2026 significa reconhecer uma necessidade urgente dos jornalistas.

A criação de uma política de apoio à saúde mental, com auxílio para atendimento psicológico, é uma reivindicação fundamental dos jornalistas. A categoria convive diariamente com altos níveis de pressão, sobrecarga e desgaste emocional. Garantir acesso ao cuidado psicológico significa investir em condições dignas de trabalho, prevenir o adoecimento e fortalecer o exercício de um jornalismo de qualidade”, reforça o dirigente.

Empresas rejeitam reivindicação, mas pressão dos jornalistas continua

Mesmo diante dos dados sobre o avanço do adoecimento mental e das sucessivas tentativas de diálogo do Sindjorce para a construção de um entendimento, o setor patronal rejeitou a inclusão dessa garantia na Convenção Coletiva de Trabalho. Até o momento, o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado do Ceará (Sindatel), liderado por empresas como o Sistema Verdes Mares de Comunicação, o Grupo Cidade de Comunicação, o Sistema Jangadeiro e o Grupo de Comunicação O POVO, entre outras, nega-se a assegurar uma política permanente de apoio à saúde mental, com auxílio para atendimento psicológico.

A reivindicação, no entanto, está entre as prioridades apontadas pelos próprios profissionais. Em pesquisa realizada em junho de 2026 pelo Sindjorce com jornalistas cearenses, 36,1% dos respondentes indicaram a saúde mental e o apoio psicológico entre os temas prioritários para a categoria.

A pauta apareceu atrás de outras tão relevantes demandas, tais como reposição salarial com ganho real, indicada por 94,8% dos participantes; do auxílio-alimentação para todos, com 70,1%; do convênio médico ou auxílio-saúde, com 46,4%; do combate à pejotização, com 40,2%; e do adicional para o trabalho multiplataforma, com 38,1%.

Diante da recusa das empresas, o Sindjorce seguirá pressionando o setor patronal pela inclusão da medida na Convenção e pela adoção de políticas efetivas de prevenção ao adoecimento e de cuidado com a saúde mental dos jornalistas.

Programa de Qualidade de Vida também integra a pauta

Além do auxílio para atendimento psicológico, a Campanha Salarial 2026 propõe que as empresas implantem um Programa de Qualidade de Vida voltado aos jornalistas.

A proposta contempla ações permanentes de promoção da saúde física e mental, prevenção de acidentes, segurança no trabalho, integração entre os profissionais e melhoria do ambiente laboral.

O texto estabelece ainda que o programa deverá ser submetido previamente ao Sindjorce antes de sua implementação.

A reivindicação busca garantir que as iniciativas não sejam limitadas a atividades isoladas ou ações institucionais pontuais, mas façam parte de uma política contínua de prevenção ao adoecimento e de melhoria das condições de trabalho.

Pauta reúne outras reivindicações dos jornalistas

Além das propostas voltadas à saúde mental e à promoção da qualidade de vida, a pauta aprovada pelos jornalistas cearenses reúne outras reivindicações consideradas essenciais para a valorização profissional e a melhoria das condições de trabalho:

  • reposição integral da inflação, com recuperação gradual das perdas salariais acumuladas e garantia de ganho real;
  • implantação de auxílio-alimentação para jornalistas da capital e do interior;
  • combate à pejotização e às formas precárias de contratação que burlam direitos trabalhistas;
  • respeito à jornada especial dos jornalistas e regularização do pagamento de horas extras;
  • garantia de condições adequadas de segurança e proteção nas coberturas jornalísticas;
  • promoção da igualdade salarial e combate a todas as formas de discriminação no ambiente de trabalho;
  • participação das empresas no custeio de plano de saúde ou criação de auxílio-saúde;
  • adicional de 20% para jornalistas que produzem conteúdo simultaneamente para múltiplas plataformas.

Com informações da Agência Senado.

 

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