O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) recebeu, nos últimos dias, um ofício de um veículo de comunicação cearense solicitando manifestação institucional acerca de um episódio envolvendo um jornalista da empresa e um agente público estadual durante o exercício da atividade profissional.
A entidade opta por não identificar, neste momento, nem o veículo, nem o profissional, nem o agente público envolvidos. Entendemos que a discussão deve ultrapassar os nomes e alcançar os princípios que precisam orientar a relação entre imprensa, poder público, empresas de comunicação e sociedade.
Inicialmente, é importante registrar que o vídeo que circula nas redes sociais apresenta cortes de edição e não permite a compreensão integral do contexto em que ocorreu o episódio. Por essa razão, o Sindjorce considera inadequado emitir juízo definitivo sobre os fatos sem acesso ao conteúdo completo da interação.
Feita essa ressalva, reafirmamos que a liberdade de imprensa constitui um dos pilares fundamentais da democracia. Agentes públicos, independentemente da função que ocupem, devem estar preparados para responder questionamentos da imprensa e prestar contas à sociedade. O contraditório, a fiscalização e o escrutínio público fazem parte da vida democrática e não podem ser tratados como afronta pessoal.
Da mesma forma, jornalistas não podem ser desrespeitados, intimidados ou constrangidos no exercício regular de sua atividade profissional.
No entanto, a defesa da liberdade de imprensa não pode ser seletiva.
O mesmo compromisso que exige respeito aos jornalistas por parte das autoridades públicas exige, igualmente, compromisso dos profissionais e das empresas de comunicação com os princípios éticos da profissão.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que o compromisso fundamental do jornalismo é com a verdade dos fatos e com o direito da sociedade à informação de interesse público. O exercício da atividade jornalística pressupõe independência, responsabilidade, pluralidade, rigor na apuração e compromisso permanente com a sociedade.
Nesse contexto, é legítimo que a categoria e suas entidades reflitam sobre os limites entre jornalismo, comunicação política, militância ideológica e disputa partidária. Também é legítimo questionar se determinadas práticas editoriais estão efetivamente voltadas ao interesse público ou se passam a atender prioritariamente interesses políticos, econômicos ou ideológicos específicos.
Tal reflexão não se dirige exclusivamente a um veículo ou grupo político. Trata-se de um debate necessário para todo o jornalismo brasileiro, especialmente em um período marcado pela polarização política, pela desinformação e pela crescente dificuldade de distinção entre informação, opinião e propaganda.
Também é impossível discutir liberdade de imprensa sem discutir as condições concretas de trabalho dos jornalistas.
O Sindjorce tem denunciado de forma permanente a precarização das relações de trabalho no setor da comunicação, especialmente por meio de formas de contratação que suprimem direitos assegurados pela legislação trabalhista, pelas convenções coletivas e pelas conquistas históricas da categoria.
Práticas amplamente difundidas no mercado, como a pejotização de profissionais que exercem funções típicas de vínculo empregatício, representam grave ameaça aos direitos dos jornalistas. Elas retiram garantias como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, proteção previdenciária, estabilidade decorrente de direitos coletivos e diversos outros instrumentos de proteção social construídos ao longo de décadas de luta sindical.
Por essa razão, causa preocupação que empresas que, em determinados momentos, recorrem legitimamente às entidades representativas em defesa da liberdade de imprensa, não demonstrem o mesmo empenho na valorização profissional, no respeito aos direitos trabalhistas e na construção de condições dignas de trabalho para os jornalistas que mantêm suas operações diariamente.
A defesa da liberdade de imprensa e a defesa dos direitos trabalhistas não são pautas concorrentes. São partes inseparáveis da mesma luta.
Não existe jornalismo forte sem profissionais valorizados. Não existe liberdade de imprensa plena quando jornalistas trabalham sob relações precárias, inseguras ou incompatíveis com os direitos assegurados à categoria.
Da mesma forma, não existe democracia forte quando agentes públicos tratam jornalistas com hostilidade ou quando veículos de comunicação colocam interesses políticos, econômicos ou ideológicos acima do compromisso com a informação de interesse público.
Diante disso, o Sindjorce reafirma sua independência em relação a governos, empresas de comunicação, grupos econômicos e forças políticas de qualquer natureza.
Nossa posição é simples e inegociável: defendemos o livre exercício do jornalismo, o respeito aos profissionais da imprensa, a ética jornalística, a liberdade de informação, os direitos trabalhistas da categoria e o compromisso permanente com o interesse público.
É com esses princípios — e não com conveniências políticas ou empresariais — que seguiremos atuando.
Fortaleza, 29 de junho de 2026.
DIRETORIA DO SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS NO ESTADO DO CEARÁ – SINDJORCE











