MANIFESTO PÚBLICO EM DEFESA DO JORNALISMO E DA VALORIZAÇÃO DOS JORNALISTAS DO CEARÁ

Imagem: Freepik. O Sindjorce conclama toda a sociedade cearense a se somar a esta mobilização.

O jornalismo é um dos pilares da democracia. É por meio dele que a sociedade acompanha os acontecimentos que impactam sua vida, fiscaliza os poderes públicos e privados, combate a desinformação e exerce plenamente sua cidadania.

Mas, enquanto a informação continua sendo um bem essencial para a sociedade, os profissionais responsáveis por produzi-la enfrentam uma realidade cada vez mais dura: salários corroídos pela inflação, intensificação permanente do trabalho, múltiplas funções acumuladas, adoecimento físico e mental e crescente precarização das relações de trabalho.

No Ceará, os jornalistas acumulam, desde 2019, quando o reajuste foi zero, uma perda salarial de 10,52% em relação à inflação. Na prática, isso significa que o salário da categoria hoje corresponde a apenas 89,48% do valor que deveria ter caso tivesse acompanhado integralmente a evolução do custo de vida no período.

Diante desse cenário, a Campanha Salarial 2026 foi construída com responsabilidade, apresentando uma pauta que busca não apenas a reposição da inflação, mas também iniciar a recuperação gradual das perdas acumuladas e enfrentar problemas concretos que afetam diariamente a categoria.

Entretanto, após cinco rodadas de negociação, o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Ceará (Sindatel) manteve uma postura de absoluta resistência às reivindicações dos trabalhadores. Nenhum dos pleitos da categoria avançou. Nenhuma medida efetiva de valorização profissional foi apresentada.

Em vez de negociar, o patronato limitou-se a impor sua vontade.

Após cinco rodadas de negociação, a categoria não recebeu qualquer proposta que representasse avanço concreto em direitos, valorização profissional ou recuperação das perdas acumuladas.

A proposta apresentada pelas empresas limita-se à reposição da inflação acumulada em 2025, de 3,9%. Já os jornalistas reivindicam 7,4%, índice que contempla a inflação do período e uma parcela mínima da recuperação das perdas salariais acumuladas nos últimos anos. Além de rejeitar essa reivindicação, o patronato recusou-se a discutir qualquer perspectiva de ganho real ou de recomposição do poder de compra da categoria.

Mais grave ainda: além de negar qualquer avanço, as empresas insistem em propostas que representam retrocessos para os jornalistas.

Preocupa a tentativa de excluir determinados cargos de gestão dos reajustes coletivos, criando precedentes perigosos para a fragmentação da categoria e para a retirada gradual de direitos historicamente conquistados.

Também causa profunda preocupação a postura de absoluta intransigência das empresas em relação a direitos básicos de proteção social. De forma alarmante, os jornalistas das empresas de radiodifusão do Ceará não possuem, em sua convenção coletiva, benefícios amplamente difundidos no mercado de trabalho, como auxílio-alimentação, vale-refeição ou cesta básica.

Da mesma forma, a categoria não dispõe de qualquer política coletiva de apoio à saúde dos trabalhadores. Ao longo dos anos, as empresas também se recusaram a negociar medidas simples de valorização profissional, como a criação de um vale-cultura de apenas R$ 50 mensais.

Parte desses benefícios poderia, inclusive, ser implementada com apoio de programas de incentivo governamental, como o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), reduzindo significativamente os custos para os empregadores.

A situação torna-se ainda mais injustificável quando se observa que, em diversas empresas do setor, trabalhadores de outras categorias profissionais já contam com benefícios alimentares e assistenciais, enquanto justamente os jornalistas — responsáveis por produzir o conteúdo que sustenta a atividade-fim dessas organizações — permanecem excluídos dessas garantias mínimas.

Enquanto isso, a realidade das redações segue marcada pela intensificação do trabalho. Os jornalistas produzem simultaneamente para televisão, rádio, internet, redes sociais, aplicativos e plataformas digitais. Fazem mais, produzem mais, entregam mais resultados e assumem mais responsabilidades. Mas a valorização profissional não acompanha esse aumento das exigências.

Por isso, a categoria, em suas instâncias democráticas de deliberação, decidiu continuar lutando por:

  • Reposição integral da inflação com recuperação gradual das perdas salariais acumuladas e garantia de ganho real;

  • Implantação de auxílio-alimentação para todos os jornalistas da capital e do interior;

  • Combate à pejotização e às formas precárias de contratação que burlam direitos trabalhistas;

  • Respeito à jornada especial dos jornalistas e regularização do pagamento de horas extras;

  • Criação de política de apoio à saúde mental, com auxílio para atendimento psicológico;

  • Garantia de condições adequadas de segurança e proteção nas coberturas jornalísticas;

  • Promoção da igualdade salarial e combate a todas as formas de discriminação no ambiente de trabalho;

  • Participação das empresas no custeio de plano de saúde ou criação de auxílio-saúde para a categoria;

  • Adicional de 20% para jornalistas que produzem conteúdo simultaneamente para múltiplas plataformas.

Não se trata de privilégios. Trata-se de reivindicações legítimas, compatíveis com a realidade contemporânea do trabalho jornalístico e necessárias para proteger a saúde, a dignidade e as condições de exercício profissional da categoria.

As empresas alegam que a reoneração da folha de pagamento limita sua capacidade de negociação. O curioso é que, durante anos, o setor foi beneficiado por desonerações e incentivos públicos sem que os jornalistas recebessem, em contrapartida, valorização salarial, ampliação de direitos ou melhoria das condições de trabalho.

Mais grave: as empresas exigem compreensão dos trabalhadores, mas se recusam a apresentar qualquer transparência sobre sua situação econômica. Nunca colocaram suas contas sobre a mesa de negociação. Nunca demonstraram faturamento, lucratividade, distribuição de resultados ou remuneração de acionistas que sustentem o discurso de impossibilidade financeira.

Para os jornalistas, fala-se em contenção. Para os direitos, fala-se em sacrifício. Mas os dados que justificariam esse discurso permanecem escondidos.

Os trabalhadores não podem continuar financiando, com seus salários, sua saúde e sua qualidade de vida, um modelo empresarial que socializa perdas e privatiza ganhos.

Defender os jornalistas não é defender um interesse corporativo. É defender o direito da sociedade à informação de qualidade.

Não existe informação de qualidade produzida sob precarização.

Não existe imprensa forte sem profissionais valorizados.

Não existe democracia forte sem jornalismo livre, independente e exercido em condições dignas.

Por isso, nós, jornalistas, entidades sindicais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores, estudantes e cidadãos comprometidos com a democracia manifestamos nosso apoio à Campanha Salarial 2026 dos Jornalistas do Ceará.

Exigimos que as empresas de rádio e televisão abandonem a postura de intransigência demonstrada ao longo das negociações, respeitem a mesa de negociação coletiva e apresentem propostas concretas que enfrentem as perdas salariais acumuladas e a crescente precarização do trabalho jornalístico.

A sociedade precisa saber: quando os jornalistas perdem direitos, perde também a democracia.

Conclamamos toda a sociedade cearense a se somar a esta mobilização.

Valorizar os jornalistas é valorizar a informação.

Valorizar a informação é fortalecer a democracia.

Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce)

Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)

Assine o manifesto aqui

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