Desigualdade salarial e barreiras ao acesso a cargos de liderança reforçam reivindicação por igualdade de remuneração e oportunidades para jornalistas mulheres

A presença das mulheres no mercado de trabalho e no jornalismo brasileiro cresceu significativamente nas últimas décadas. Elas ocupam redações, produzem conteúdo, comandam reportagens e estão cada vez mais presentes em diferentes áreas da profissão. Apesar desse avanço, a presença feminina ainda não se traduz, na mesma proporção, em acesso a cargos de liderança, posições de chefia e funções com maior remuneração.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres continua sendo um dos principais desafios para a construção de relações de trabalho mais justas. Dados do 5º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado no primeiro semestre deste ano pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), apontam que as mulheres recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado brasileiro.
No jornalismo, o cenário também expõe diferenças salariais e obstáculos à ascensão profissional. Dados de uma pesquisa encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) apontam que jornalistas mulheres contratadas formalmente recebem, em média, 5,7% menos que os homens pelo mesmo trabalho. A desigualdade se aprofunda à medida que aumenta o nível hierárquico. Entre editoras-chefes, por exemplo, a remuneração das mulheres chega a ser 41,3% inferior à dos homens que exercem a mesma função.
Os números revelam um paradoxo: embora as mulheres tenham conquistado uma presença expressiva no mercado de trabalho e na profissão jornalística, elas ainda enfrentam barreiras para alcançar os espaços de maior poder de decisão e remuneração. A desigualdade, portanto, não está apenas na porta de entrada do mercado de trabalho. Ela também acompanha a trajetória profissional, interferindo no acesso a promoções, cargos de chefia, posições de liderança e oportunidades de crescimento.
Mulheres avançam no jornalismo, mas liderança ainda é um desafio
A crescente presença feminina nas redações representa uma importante transformação no mercado jornalístico. No entanto, a ocupação dos espaços de liderança não acompanha esse avanço na mesma velocidade.
Uma pesquisa do Reuters Institute, de 2024, mostrou que a participação das mulheres em cargos de alto escalão no jornalismo varia significativamente entre diferentes mercados. O levantamento evidencia que, mesmo em contextos nos quais as mulheres representam uma parcela relevante da categoria, elas continuam sub-representadas em posições de liderança editorial e executiva.
Essa desigualdade pode ser explicada por diferentes fatores estruturais. Entre eles estão os chamados “tetos de vidro”, barreiras muitas vezes invisíveis que dificultam a ascensão profissional das mulheres, além da distribuição desigual das responsabilidades de cuidado e da reprodução de padrões históricos de ocupação dos espaços de poder.
Para o sociólogo e mestre em Avaliação de Políticas Públicas Blesser Moreno, a desigualdade salarial e de oportunidades não está necessariamente relacionada à qualificação profissional das mulheres, mas a fatores históricos e estruturais que ainda influenciam as relações de trabalho.
“Existe uma percepção de que determinados mercados foram historicamente feitos e moldados para homens, como se eles fossem mais competentes para ocupar determinadas posições. Isso acaba, com toda certeza, gerando uma desigualdade muito grande e estrutural”, explica.
Segundo o especialista, essa desigualdade também é reproduzida por meio das relações sociais e das redes de convivência que influenciam o acesso a oportunidades profissionais.
“Os homens têm uma rede mais fechada, por conta da facilidade que têm de estar juntos em diferentes espaços de socialização. Isso acaba gerando entre essas pessoas uma rede de proteção e uma parceria. Por si só, isso já exclui as mulheres de chegarem a altos cargos, porque muitos desses postos são cargos de confiança, de amizade e de relacionamento construídos muitas vezes fora das empresas”, analisa.
Blesser Moreno defende que políticas de valorização profissional e igualdade remuneratória devem incluir mecanismos capazes de tornar as diferenças salariais mais visíveis e passíveis de fiscalização. Para ele, a transparência é um dos primeiros passos para enfrentar o problema.
“O primeiro passo seria termos uma transparência salarial, em que o cargo fosse amplamente conhecido dentro da estrutura da empresa e o salário também fosse conhecido por todos, para que não haja diferenciação entre homens e mulheres. E, obviamente, isso poderia ser auditado, com critérios claros, talvez até para algum tipo de certificação. Acho que seria um caminho importante para diminuir essa diferença e, quem sabe, no futuro, até eliminar essa desigualdade do ambiente de trabalho”, afirma.
O sociólogo também aponta a necessidade de políticas que contribuam para uma divisão mais equilibrada das responsabilidades familiares. Segundo ele, medidas de flexibilização da jornada e apoio à parentalidade devem contemplar homens e mulheres, permitindo que os homens também participem mais ativamente da rotina de cuidado e criação dos filhos.
“Uma outra questão que acredito que possa ser fundamental é uma política que flexibilize mais os horários, além do apoio familiar necessário. Essa flexibilidade deveria ser estendida, dentro de certos limites, também aos homens, para que eles tivessem a experiência de participar da vida cotidiana e da criação de um filho”, defende.
Para Moreno, a combinação entre transparência salarial, critérios objetivos de promoção e políticas de apoio à parentalidade pode contribuir para romper com padrões históricos que perpetuam a desigualdade e dificultam a chegada das mulheres aos cargos de maior responsabilidade e remuneração.
No jornalismo, as desigualdades também são atravessadas por questões raciais e sociais. Mulheres negras, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos historicamente marginalizados podem enfrentar camadas adicionais de discriminação, ampliando as barreiras para o acesso a melhores salários, promoções e cargos de liderança.
Igualdade salarial também é pauta da Campanha Salarial 2026
A discussão sobre igualdade de remuneração e oportunidades está entre as reivindicações apresentadas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) nas negociações da Campanha Salarial 2026.
A entidade reivindica que profissionais que desempenham trabalho de igual valor tenham asseguradas condições de igualdade de remuneração e oportunidades, sem discriminação por gênero, orientação sexual, raça, cor, idade, deficiência ou qualquer outra característica pessoal.
A proposta considera que a valorização dos jornalistas não se limita à recomposição salarial. Ela também envolve a garantia de condições justas para o desenvolvimento profissional, critérios transparentes de contratação, remuneração e promoção, além de oportunidades efetivas de crescimento e acesso a cargos de liderança.
Para o presidente do Sindjorce, Rafael Mesquita, a presença das mulheres no mercado de trabalho precisa ser acompanhada pela garantia de igualdade nas oportunidades de ascensão profissional.
“As mulheres já são maioria nas redações e nas empresas de comunicação, mas é preciso garantir que tenham as mesmas oportunidades de crescimento, acesso a cargos de liderança e remuneração justa pelo trabalho que realizam. A igualdade salarial é uma questão de justiça e deve estar no centro das relações de trabalho. Para o Sindjorce, não há valorização profissional verdadeira enquanto persistirem desigualdades que impeçam mulheres jornalistas de terem as mesmas oportunidades de construir suas carreiras”, reforça.
Para o sindicato, combater as desigualdades no ambiente de trabalho é fundamental para fortalecer a profissão e garantir relações profissionais mais justas, democráticas e transparentes. A luta por igualdade salarial está diretamente ligada, portanto, à defesa de oportunidades iguais de crescimento profissional.
Negociação salarial segue sem avanços
A reivindicação por igualdade de remuneração e oportunidades ocorre em meio ao impasse nas negociações da Campanha Salarial 2026. Em 15 de julho, as empresas de comunicação do Ceará mantiveram o reajuste de 3,9%, correspondente ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), e informaram que o percentual seria antecipado para a folha de agosto, sem apresentar uma nova proposta para os demais pontos da pauta de reivindicações dos jornalistas.
Diante da falta de avanços, o Sindjorce solicitou a mediação do Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio da Procuradoria Regional do Trabalho da 7ª Região (PRT-7). O pedido foi atendido e o MPT já agendou a sessão telepresencial de mediação para o dia 5 de agosto de 2026, às 13h30. Paralelamente, o Sindjorce deverá discutir a convocação de uma nova assembleia para avaliar os próximos passos da mobilização.
A antecipação do reajuste não encerra as negociações, não representa a aceitação do índice pela categoria e não desobriga as empresas de discutir os demais itens da pauta apresentada pelo Sindjorce.
O sindicato continuará cobrando uma proposta que contemple valorização salarial, ampliação de direitos e garantia de benefícios capazes de proporcionar melhores condições de trabalho e qualidade de vida aos jornalistas.










