Categoria aceita reajuste de 3,9% e abono de 5% para viabilizar a assinatura da Convenção Coletiva, mas repudia intransigência patronal e inicia mobilização pela próxima campanha

Após quase 11 meses de negociações, mobilizações e duas rodadas de mediação no Ministério Público do Trabalho (MPT), os jornalistas de Rádio e Televisão do Ceará aprovaram, por unanimidade, a proposta patronal para encerrar a Campanha Salarial 2026. A decisão foi tomada sob veemente protesto, indignação e profundo repúdio à condução das negociações pelas empresas.
A deliberação ocorreu na Assembleia Geral Extraordinária do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Ceará (Sindjorce), realizada na segunda-feira (17), em formato híbrido. A categoria deixou claro que a aprovação teve caráter exclusivamente pragmático: viabilizar a formalização da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) e encerrar um impasse que se prolongava há quase um ano, e não reconhecer a proposta como suficiente.
O acordo prevê reajuste salarial de 3,9% a partir da folha de agosto e pagamento, em três parcelas, de abono de 5% sobre os salários de janeiro a julho de 2026. Com o reajuste, o piso de R$ 3.482,47 passa para R$ 3.618,29, um acréscimo nominal de R$ 135,82. O abono, porém, não será incorporado aos salários.
“Essa não é uma proposta que atende às necessidades dos jornalistas. O reajuste permanente de 3,9% não enfrenta o achatamento salarial, a intensificação do trabalho e o acúmulo de funções. A categoria aprovou para encerrar o impasse, mas sob protesto e sem reconhecer que esse resultado seja suficiente”, afirma o presidente do Sindjorce, Rafael Mesquita.
Quase um ano de negociação e poucos avanços
Durante a assembleia, a categoria repudiou a postura do setor patronal, marcada, segundo os trabalhadores, pela intransigência, sucessivos adiamentos, longos intervalos entre as rodadas e ausência de avanços efetivos.
O Sindjorce também criticou o contraste entre o discurso empresarial de abertura ao diálogo e uma prática considerada passivo-agressiva, com postergação de respostas, tratamento desrespeitoso aos trabalhadores e rejeição das alternativas apresentadas pelo Sindicato.
A assembleia classificou a conduta como expressão de relações de trabalho autoritárias, arcaicas e até medievais, incompatíveis com a responsabilidade social que as empresas de comunicação afirmam defender publicamente.
“Foram quase 11 meses tentando negociar. A categoria se mobilizou, o Sindicato buscou alternativas e chegamos ao MPT para tentar construir uma saída. Mesmo assim, o setor patronal não apresentou uma proposta capaz de responder às reivindicações dos trabalhadores”, afirma Rafael.
Sindjorce propôs benefício de R$ 300
Nas duas sessões de mediação realizadas no MPT, nos dias 5 e 12 de agosto, o Sindatel manteve a proposta de reajuste de 3,9% e apresentou, como novidade, um abono correspondente a 5% dos salários.
Como complemento e buscando um acordo, o Sindjorce propôs a criação de um benefício mensal de R$ 300,00 (trezentos reais) a partir de agosto, que poderia ser estruturado como auxílio-alimentação, cesta básica, auxílio-saúde ou outra modalidade, fora da folha salarial.
A proposta foi recusada pelo setor patronal, que manteve integralmente sua posição. A mediação terminou sem acordo.
“Nós apresentamos uma alternativa concreta de R$ 300,00 (trezentos reais) mensais para tentar reduzir o impacto do achatamento salarial e conferir um benefício, como alimentação, que é regra em todo o mundo do trabalho, exceto no arcaico e retrógrado mercado de comunicação do Ceará. O setor patronal recusou qualquer melhoria, demonstrando a falta de disposição para construir uma solução efetiva para os jornalistas”, destaca Rafael Mesquita.
Nova campanha começa imediatamente
Apesar do encerramento da CCT 2026, a categoria decidiu não interromper a mobilização. A assembleia aprovou a abertura imediata da próxima Campanha Salarial de Rádio e Televisão e convocou nova assembleia para 2 de setembro deste ano, quando será discutida e aprovada a pauta de reivindicações.
“A campanha de 2026 termina formalmente, mas a luta continua. Vamos começar agora a construir a próxima pauta, fortalecer a mobilização e chegar à próxima negociação mais organizados. O que aconteceu nesta campanha não pode se repetir”, afirma o presidente do Sindjorce.
A assembleia também aprovou a contribuição assistencial de R$ 100,00 (cem reais) por jornalista, destinada ao custeio das campanhas salariais. A contribuição alcança filiados e não filiados, considerando que as conquistas negociadas pelo Sindicato, como o reajuste salarial, beneficiam toda a categoria.
Entre essas conquistas está a garantia de reajuste para todos os jornalistas, inclusive os que ocupam funções de chefia, que as empresas pretendiam excluir.
O presidente do Sindjorce explicou que o valor de R$ 100 representa uma redução em relação à contribuição anterior, de 5% do salário, para facilitar a participação de todos. Também destacou a situação financeira deficitária do Sindicato, agravada por uma decisão judicial considerada injusta pela entidade e que reduziu suas receitas.
Jornais, revistas e assessoria também entram na mobilização
A situação dos jornalistas de Jornais e Revistas e de Assessoria de Comunicação também foi debatida. Como as condições específicas dos profissionais de assessoria integram, como anexo, o instrumento coletivo do setor de jornais e revistas, a paralisação das negociações afeta diretamente esses trabalhadores.
Diante da inatividade do sindicato patronal de jornais e revistas do Ceará, a assembleia aprovou a convocação da Federação Nacional das Empresas de Jornais e Revistas para a abertura imediata das negociações.
Caso não haja avanço, o Sindjorce deverá acionar o MPT para solicitar mediação e garantir a instalação da mesa de negociação.
“A inatividade do sindicato patronal não pode servir de mecanismo para impedir a negociação coletiva. Vamos cobrar a abertura da mesa e, se necessário, recorrer também ao Ministério Público do Trabalho”, afirma Rafael Mesquita.
Encerramento com indignação e mobilização
A aprovação da proposta encerra formalmente a Campanha Salarial 2026, mas não representa concordância com a postura patronal nem com a suficiência dos termos acordados.
Para o Sindjorce, a decisão foi necessária para garantir a Convenção Coletiva e impedir que a categoria permanecesse indefinidamente sem um instrumento coletivo. Ao mesmo tempo, a assembleia reafirmou a necessidade de unidade, presença nos locais de trabalho, comunicação permanente com a base e pressão pública sobre as empresas.
Principais encaminhamentos
- Reajuste salarial de 3,9% a partir da folha de agosto de 2026;
- Abono de 5% sobre os salários de janeiro a julho, pago em três parcelas;
- Formalização e registro da CCT 2026;
- Abertura imediata da nova Campanha Salarial de Rádio e Televisão;
- Assembleia em 2 de setembro para aprovação da próxima pauta;
- Contribuição assistencial universal de R$ 100;
- Convocação da Federação Nacional das Empresas de Jornais e Revistas para abertura das negociações deste setor;
- Acionamento do MPT, se necessário, para garantir a mesa de negociação de Jornais e Revistas e Assessoria de Comunicação;
- Início da construção da pauta de 2027 ainda em agosto.










