
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) se reuniu na última terça-feira (28) com o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Ceará (Sindatel) para avançar nas negociações da Campanha Salarial 2026 para a categoria. A mesa de negociação foi retomada após cobrança do Sindjorce, diante da falta de retorno da entidade patronal sobre as demandas apresentadas.
Participaram da reunião, representando o Sindjorce, o presidente da entidade, Rafael Mesquita, a diretora de Segurança e Defesa do Exercício Profissional, Bemfica de Oliva, e o assessor jurídico do sindicato, Carlos Chagas. Pelo Sindatel, estiveram presentes o presidente Marcos Tardin e o assessor Neto Medeiros.
Demandas da categoria incluem recomposição salarial, atualização de benefícios, e cláusulas sociais
A principal reivindicação da Campanha Salarial 2026, que ocorre de forma coordenada com outros sindicatos de jornalistas em todo o país, é a recomposição salarial. A categoria acumula, desde 2017, perdas da ordem de quase 15%, em relação à inflação do período. Em 2024, os jornalistas cearenses decidiram, em assembleia, exigir a compensação desta diferença ao longo de quatro anos, com reajustes de 3,5% por ano em adição à inflação acumulada no ano anterior. Para 2026, a meta é um aumento de 7,4%, composto pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que fechou 2025 em 3,9%, e pela parcela da recomposição.
A pauta econômica e de relações de trabalho contém ainda outras demandas da categoria, como o auxílio-refeição no valor de R$ 27 para jornalistas do interior e R$ 29,26 para Fortaleza, Participação nos Lucros e Resultados (PLR), vedação à pejotização, fortalecimento da jornada legal e regularização no pagamento de horas extras, e adicional de 20% para profissionais que produzem materiais para múltiplas plataformas. O sindicato apresentou, também, demandas de saúde física e mental, com custeio de pelo menos 35% do plano de saúde dos jornalistas, e ressarcimento de até 24 sessões anuais de atendimento psicológico, no valor máximo de R$ 150 por sessão.
Adicionalmente, há pautas como adoção de iniciativas de combate ao etarismo e estabelecimento de políticas de igualdade e inclusão dentro das empresas — com metas, a serem alcançadas de forma progressiva, para a representatividade, em cargos de chefia, de mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas negras e pessoas com deficiência. Também está, entre as cláusulas propostas, incentivo à qualificação profissional, para jornalistas que cursem mestrado ou doutorado, com redução de 25% da jornada durante o período de aulas e licença remunerada de até 90 dias para a escrita da tese ou dissertação.
Por fim, o Sindjorce busca unificar as campanhas salariais dos grupos que representa. O objetivo é estabelecer uma redação única, que compreenda a Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) dos profissionais de rádio e TV e os Acordos Coletivos de Trabalho (ACTs) dos jornalistas de veículos impressos. A entidade patronal responsável pela negociação com esta última categoria, o Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas (Sindjornais), está sem diretoria desde 2020.
Sindicato patronal usa reoneração como justificativa para travar negociação de reajuste
Na reunião da última terça-feira, o Sindatel trouxe respostas sobre apenas dois pontos. Segundo o presidente da entidade, as empresas se dispuseram a debater uma redação para a cláusula de combate ao etarismo, e seguiram rejeitando a recomposição salarial.
A proposta do sindicato patronal foi de um reajuste referente apenas aos 3,9% do INPC — e que não seria aplicado aos cargos de gestão. As empresas também solicitaram, como contrapartida por oferecer um aumento abaixo do pleiteado pela categoria, que, para jornalistas que realizam cobertura de eventos esportivos e de eleições, horas extras aos domingos deixem de ser pagas com adicional de 100%. A alegação do patronato segue sendo que a reoneração da folha salarial inviabiliza outros reajustes.
Empresas alegam não ter tido tempo para avaliar propostas; pauta foi enviada ao patronato em 2025
A pauta, que reúne demandas aprovadas pela categoria em diversas assembleias, havia sido apresentada ao próprio Sindatel e a representantes das empresas, ainda em 2025, em reuniões presenciais e online. A entidade, no entanto, alegou que os patrões afirmaram não ter tido tempo para analisar o documento, atrasando a negociação em várias semanas.
Propostas patronais não atendem à demanda da categoria
Para o Sindjorce, o argumento das empresas indica o intuito de fazer a conta da reoneração ser paga pelos trabalhadores. O posicionamento patronal ignora que outros benefícios fiscais seguem em vigor e que os impactos financeiros alegados pelas empresas já vêm sendo sentidos pelos jornalistas, por meio das sucessivas perdas no poder de compra. Hoje, o salário da categoria equivale a cerca de 86% do valor que teria, se corrigido pela inflação, há dez anos.
“Estamos, provavelmente, diante da nossa negociação mais difícil dos últimos anos. As empresas, além de negarem direitos básicos como o auxílio alimentação, limitam o reajuste ao índice de inflação e ainda surpreendem com a proposta de não estender o aumento aos chamados cargos de gestão, o que sequer foi devidamente explicado. Após quase duas horas de justificativas, mantiveram essas posições. Solicitamos um novo encontro para aprofundar o debate e garantir o contraditório”, afirma o presidente do Sindjorce, Rafael Mesquita.
O dirigente pontua que a proposta patronal não contempla, em nenhum aspecto, as necessidades da categoria e, na prática, mantém as perdas acumuladas ao longo dos últimos anos. Para ele, o momento exige unidade e mobilização dos jornalistas para pressionar por avanços reais na negociação. “Não aceitaremos que a conta continue sendo paga pelos trabalhadores. Se não houver avanço, vamos intensificar a mobilização e construir, coletivamente, as formas de pressão necessárias para garantir nossos direitos”, reforça.
Diante do cenário, o Sindjorce afirma que seguirá aberto ao diálogo, mas também iniciará a preparação da categoria para possíveis ações de mobilização nas próximas semanas. A entidade ressalta que conquistas históricas sempre estiveram associadas à organização coletiva e à participação ativa dos jornalistas.
A próxima rodada da mesa de negociações deve ocorrer ainda nesta semana, com o Sindjorce cobrando o agendamento do encontro. A expectativa é retomar o debate sobre a pauta financeira e avançar nas cláusulas sociais.










