Primavera dos Jornalistas Cearenses: é tempo de florescer!

Estado de greve, paralisações, mobilizações na porta das empresas, aumento das sindicalizações, interiorizarão da luta sindical, fortalecimento da organização nos locais de trabalho, vitórias judiciais, projetos em cooperativismo, defesa da liberdade de imprensa e fortalecimento da autonomia dos jornalistas. Tudo isso nos leva a crer que vivemos a Primavera dos Jornalistas!

Após intenso processo de destruição dos direitos, orquestrado pelo Governo Federal, e aumento da repressão patronal no Jornalismo, surgiu em 2017 uma resposta poderosa dos jornalistas cearenses.

Nestes últimos meses, os operários da notícia do Ceará montaram uma forte reação, que avançou a partir de uma intensa jornada de lutas, com grandes manifestações para enfrentar a precarização das relações do trabalho e o retrocesso dos direitos.

Tudo começou com a implantação de uma nova campanha de sindicalização e atualização cadastral no Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce). Renegociação de dívidas de sócios, discussões sobre a importância da organização dos trabalhadores nos sindicatos e muitas visitas aos locais de trabalho marcaram este processo.

Mas as novas lutas organizadas por estes trabalhadores têm como marco inaugural a realização, em agosto deste ano, do I Congresso Estadual Extraordinário dos Jornalistas do Ceará. Na oportunidade, cerca de 200 profissionais e estudantes fizeram profundo debate sobre os rumos da categoria e construíram um Plano de Lutas para os próximos anos, o que alguns chamaram de “grito de insurgência” da classe.

Do Congresso, os jornalistas de todos os tipos de mídia, seja comercial, sindical, governamental e outros, definiram como prioridade a luta unificada e a reafirmação da relevância do Jornalista e do Jornalismo como pilares essenciais para a Democracia.

E foi a partir dos novos rumos definidos no fórum máximo da categoria no Ceará que uma nova agenda se montou, começando pelo Projeto Sindjorce Itinerante, que já passou pela região do Cariri e por Sobral. O fortalecimento da luta sindical nas bases regionais reascendeu o sentimento de mobilização coletiva, valorização profissional, organização classista e compreensão do papel dos jornalistas na sociedade.

Dos encontros realizados no interior do Estado emergiu a necessidade de intensificar a batalha pela garantia dos pisos salariais e da jornada de trabalho de 30 horas semanais, que deve ser acompanhada por uma campanha de valorização profissional da categoria.

Também demanda do Congresso, o fortalecimento da presença do Sindicato nos cursos de Jornalismo foi uma das principais metas. Com isso, as faculdades começaram a receber os debates chamados de Encontros Universitários Sindjorce, que colocam em primeiro plano as demandas dos jornalistas em formação, assim como seus anseios e desafios.

Pensando na construção do profissional, o Sindjorce realizou cursos, formações e debates, sempre com vistas à qualificação pessoal que interfere diretamente na produção jornalística cearense, reafirmando valores como a ética e o interesse público. Assim, foram fundamentais a segunda turma do Curso de Formação de Repórter Cinematográfico e o curso Comunicação, Saúde e Direitos das Mulheres – este último em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e a ONU Mulheres. Destaque, ainda para as rodas de conversa sobre “Jornalismo e terceira Idade”“Jornalismo no plural: igualdade de oportunidades para jovens, mulheres, negros e negras e LGBTs”, “O papel da comunicação no atual contexto da luta de classes” – em parceria com o MST/CE, além do Seminário “A reforma da Previdência e o impacto na categoria dos jornalistas”.

Também como parte do caráter formativo e cultural da entidade sindical dos jornalistas, o Sindjorce promoveu lançamentos de livros “Guerreiros de Santa Maria”“O nascimento de Joyce” e “Abrigo dos Idosos – a arte de descascar memórias”, representando o fomento à produção literária da categoria. E, sem perder o caráter lúdico, realizou mais uma edição do bloco de pré-Carnaval Matou a Pauta, as reuniões do projeto Café e Memória do Jornalismo Cearense e aNoite das Utopias, com uma festa de encerramento do nosso congresso, aberta ao público frequentador da Praia de Iracema.

Noutra via, a categoria vem discutindo a criação das Comissões de Jornalistas Jovens, LGBTs, Mulheres e Pela Igualdade Racial, com o objetivo de reafirmar a necessidade de uma produção jornalística plural e albergada nos direitos humanos, além da própria discussão sobre os segmentos de jovens, mulheres, negros e negras e LGBTs no mercado de trabalho da Comunicação. Além de debates, as demandas foram marcadas pela participação dos profissionais da área, de forma organizada, da 18ª Parava da Diversidade Sexual, realizada em Fortaleza.

Mais batalhas travadas tiveram seu desfecho. Nove anos depois de ingressar com ações contra a TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo no Estado, novamente, a justiça foi feita. A emissora pagou mais de meio milhão de reais a 12 jornalistas, pelo descumprimento de sentenças normativas referentes a dissídios da categoria. A TV – assim como outras emissoras cearenses – passou a pagar o piso de radialista aos jornalistas, gerando um passivo trabalhista que se desdobrou em três ações judiciais. Nesta ação, o montante total foi de R$ 671.378,38.

A perspectiva é de que mais processos sejam concluídos nos próximos meses, mostrando que nem mesmo a (de)forma trabalhista conseguirá impedir que a justiça seja feita. O Sindjorce também move ações semelhantes contra Jangadeiro, TV Cidade e Rede TV, todos com ganho de causa até a última instância e em fases diferentes de trâmites. Um primeiro processo já foi pago em 2016, no valor de R$ 2 milhões, beneficiando 44 profissionais da TV Verdes Mares e Rádio Verdes Mares.

E a ação dos trabalhadores e da sua organização de classe impediu mais retrocessos nos direitos dos jornalistas de mídia eletrônica, quando apresentadores, redatores e repórteres do Sistema Jangadeiro, que reúne a TV Jangadeiro, afiliada do SBT no Ceará, a Tribuna Band News FM e o portal Tribuna do Ceará, atenderam à proposta do Sindicato e realizaram duas rodadas de mobilização, que se reverteram no aumento dos índices de reposição salarial dos empregados de rádio e TV, conquistado através de um Dia de Luto para mostrar a revolta da categoria. Uma atividade inédita nas empresas citadas e que deu outro rumo à Campanha Salarial 2017.

Organizados em protestos e ações desde o início do ano, vindo de intensa mobilização desde o segundo semestre de 2016, os trabalhadores de jornais e revistas, mais uma vez, tiveram que enfrentar a intransigência patronal. Sentindo-se desvalorizados e desrespeitados, uma vez que os donos das empresas de comunicação passaram meses para apresentar uma contraproposta e, quando o fizeram, desconsideraram totalmente a situação dos trabalhadores, os jornalistas decidiram iniciar um novo estado de greve.

Desta vez, com uma agenda mais firme e com atividades diárias nas portas das empresas. Foram dias intensos, de construção das atividades, entrosamento entre os colegas e muita unidade. Todas as propostas para cada mobilização foram colocadas em votação e aprovadas por unanimidade, o que mostra sintonia entre os jornalistas e Sindjorce.

A vanguarda do processo esteve com os jornalistas d’O Povo, que depois de três dias consecutivos de paralisações, sendo a última de mais de três horas, arrancaram o início das negociações das campanhas salariais 2016/2017 e 2017/2018 e o compromisso do sindicato patronal de respeitar o processo de mediação trabalhista. Depois, a agenda foi replicada com os trabalhadores dos jornais O Estado e Diário do Nordeste. O resultado das lutas foi o aumento da oferta patronal de reajuste salarial, o que parecia impossível antes de todos os levantes realizados.

Nestes dias, também surgiu a proposta de se enfrentar com determinação os efeitos da Contrarreforma Trabalhista, que deu continuidade ao calendário de paralisações em busca de novas cláusulas nas Convenções Coletivas que trariam mais segurança jurídica para os jornalistas após a entrada em vigor do golpe feito na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Embora não logrando êxito na inclusão dos novos direitos em comum acordo com os donos da mídia, os trabalhadores saíram do processo mais fortalecidos. “Não subimos ao pódio, mas fizemos uma grande maratona e saímos com a medalha”, chegou a dizer uma das colegas d’O Povo. A declaração de entusiasmo se juntou a outras naquele dia e mostrou que determinação e força foram palavras de ordem durante todo este processo.

Além de tudo isso, o Sindjorce, também a partir de demanda do Congresso Estadual, lidera esforço para organizar no Estado uma cooperativa de trabalhadores do jornalismo, que poderá ser uma das respostas às dificuldades financeiras e esvaziamento empresarial no setor. Com isso, além de oportunizar um novo modelo de empregabilidade para profissionais cearenses, o projeto pode favorecer o surgimento de outras cooperativas, enfrentando o contexto brasileiro de poucas vozes concentradas em um ambiente corporativista. Ações que conduzem também jornalistas a liderarem organizações com gestão horizontalizada, em contraponto ao discurso da mídia tradicional, sendo, em último caso, pontapé para o desenvolvimento de mais iniciativas de ampliação da liberdade de expressão e de democratização da comunicação.

Acreditamos que a intensa jornada de lutas afirmou-se de forma vitoriosa sobre algumas das mais importantes atividades nos 64 anos de história do Sindjorce. As agendas mostraram que os sindicatos – desde que apontados exclusivamente para os interesses da Classe Trabalhadora – são os locais de resistência hoje no Brasil. Ficou também claro que existem muitos atores que querem enfraquecer a luta sindical, mas os jornalistas vêm mostrando que compreendem que é o Sindjorce o foco de resistência e palco de grandes lutas por mais dignidade, estruturado com muito equilíbrio e muita responsabilidade, firmando-se como instrumento que o trabalhador da área no Ceará tem para se unir e lutar.

Por mais destrutiva, cruel e dolorosa que seja a conjuntura do país em 2017 e por mais intransigentes e medievais que sejam os empresários da comunicação no Ceará, não há dúvida de que os Jornalistas do Estado saem deste processo fortalecidos e conscientes de que a saída é coletiva!

E se primavera traduz-se no despertar da natureza após os rigores do inverno, vivemos, sim, a Primavera dos Jornalistas do Ceará, pois as forças voltam a brotar, sustentadas no espírito coletivo e inovador.

Portanto, estimados colegas, companheiras e companheiros de luta, é tempo de florescer!!!

Diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará –  Sindjorce

1 COMENTÁRIO

  1. Nós, seres informados e informativos, estamos de parabéns. Não apenas por termos tirado água limpa de pedras toscas, a partir de conquistas econômicas, financeiras e, politicamente, sindicais. Com vitórias hegemônicas, nas unânimes manifestações, em defesa dos direitos de sobrevivência digna da categoria de jornalistas dos mais distintos matizes sociais. Não esqueçamos jamais; se fomos travados , por curto tempo, na nossa espinhosa caminhada na busca de nossos direitos, conseguimos florescer com sucessivos avanços, obedecendo os ensinamentos e as leis da vida em movimento, que nos ensina: ” Um passo atrás e dois a frente.” Entrelacemos nossos dedos das mãos fraternas e caminhemos, sem temor, para novas lutas e novas conquistas.

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