Palestrantes apontam caminhos para Jornalismo ético e valorização profissional

“Não podemos mais aceitar passivamente a precarização que vem acontecendo nas últimas décadas”. A afirmação da presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Maria José Braga, resume o tom dos debates no segundo dia do I Congresso Estadual Extraordinário dos Jornalistas do Ceará e III Encontro Estadual de Jornalistas em Assessoria de Imprensa (EEJAI). As nuances do jornalismo no Brasil no contexto político atual foram analisadas detalhadamente em painéis que discutiram a ética, a mídia independente, a não-homogeneização da imprensa e a pauperização da profissão em tempos de Reforma Trabalhista.

Se no dia anterior as formalidades iniciais amenizaram o caráter extraordinário do Congresso, a manhã do sábado (12/08) deixou claro o momento delicado pelo qual atravessam os trabalhadores brasileiros, especificamente os jornalistas. As atividades foram iniciadas com a leitura e aprovação do regimento interno do Congresso e do Encontro pelos delegados presentes.

Logo após a aprovação, a primeira mesa contou com as jornalistas Sylvia Moretzsohn e Laura Capriglione para discussão que indagava: “Jornalismo em crise ou a crise do modelo de negócios do jornalismo?”. Ex-professora no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Sylvia iniciou citando o filósofo alemão Karl Marx e a práxis, conceito socrático que defende a atividade prática em oposição à teoria.

Com o subtema “A ética e a transformações e dilemas do jornalismo no contexto inaugurado pela internet”, a jornalista enfatizou a obrigação de um jornalismo ético. Discursou sobre a dificuldade de tal tarefa visto que as grandes corporações de comunicação, muitas vezes, privam o profissional de liberdade de opinião dentro e fora do ambiente de trabalho. E, por último, deu exemplos pessoais ocorridos durante sua carreira. Sylvia encerrou seu momento, renovando a importância do movimento sindical para conquistas dos trabalhadores. E criticou os conflitos internos da classe que, em vários momentos, impediram ou atrasaram vitórias.

Com o subtema “Jornalismo independente e fora das grandes mídias é possível?”, a integrante do coletivo Jornalistas Livres, Laura Capriglione, imergiu os participantes em um verdadeiro túnel do tempo da história do jornalismo no Brasil. Usando sua carreira em lugares como a Folha de São Paulo e revista Veja, a jornalista relembrou com nostalgia os tempos em que o jornalismo era o sonho de muitos.

Lamentou a realidade atual em que os grandes grupos de comunicação optaram pelo partidarismo, se desvencilhando assim de qualquer serviço social comunicativo que deveria servir como bússola para a profissão. Laura relembrou o caso Amarildo, um ajudante de pedreiro que desapareceu em 2014, após ter sido detido por policiais militares. Ela frisou que Amarildo não passaria de uma nota de rodapé na mídia tradicional, mas que as redes sociais transformaram isso e questionaram para os quatro cantos: “Onde está Amarildo?”. Ao explicar o funcionamento, a dimensão e a extrema importância da mídia livre no Brasil, como alternativa às grandes corporações tradicionais, a jornalista encerrou o primeiro painel da manhã.

Combate à precarização

O segundo painel teve como tema central “Trabalho decente para os jornalistas no contexto das contrarreformas”. A primeira fala foi feita pelo assessor jurídico do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce), Carlos Chagas, com o subtema “Implicações legais da flexibilização no mundo do trabalho de jornalistas: terceirização, reforma trabalhista e da Previdência”. Apresentando informações técnicas, o advogado traçou um histórico da Reforma Trabalhista e demonstrou, por meio de dados, como a reforma irá transformar completamente a realidade do trabalhador brasileiro.

A presidenta da FENAJ, Maria José Braga, fez uma fala política ao invés de uma explanação. Disse que pretendia causar espanto nos participantes para demonstrar quão séria é a situação que levou o Ceará ao pioneirismo de chamar o Congresso Extraordinário. Lembrou que a precarização da classe jornalística não será iniciada com a Reforma Trabalhista porque ela vem ocorrendo há décadas.

A exploração de mão de obra estagiária e as manobras de empregadores para burlar as leis trabalhistas foram outros exemplos citados por Maria José Braga. E provocou risos quando foi citada a atividade de “free lancer fixo”, definido pela presidente como um dos absurdos que os jornalistas têm enfrentado há muitos anos.

Temerosa em relação ao futuro, a presidenta contou que no próximo ano a possibilidade da FENAJ fechar as portas é real já que com as mudanças, o imposto sindical deixará de ser obrigatório. Reforçando novamente a importância da união da classe de jornalistas e trabalhadora, ela encerrou sua fala anunciando que a Federação irá seguir os passos do Sindicato ao convocar um encontro extraordinário.

Aguardada por muitos, a deputada federal Luizianne Lins (PT) acabou detalhando os interesses anteriores sobre o processo midiático que culminou no impeachment de Dilma Roussef. A discussão sobre as atuais condições dos estagiários de comunicação finalizou a fala da deputada, que teve como tema “Estágio ou precarização? A utilização da mão de obra estudantil”. Tendo como base o projeto de lei proposto por ela, que procura regulamentar a carga horária dos estagiários, a apresentação fomentou o debate sobre a precariedade enfrentada pela classe a qual Luizianne também pertence.

Jornalistas no “mar de informações”

O terceiro painel teve como tema o “Jornalismo como pilar da Democracia”. Vencedor de dois prêmios Vladimir Herzog e criador do site Viomundo, Luiz Carlos Azenha deu continuidade ao tema de modelos alternativos à grande mídia, ao falar sobre sua experiência própria na blogosfera. Ao relembrar o episódio em que cobriu a queda do Muro de Berlin, o jornalista comparou a velocidade de troca de informações na época e agora. Por fim, celebrou a iniciativa de coletivos como o Jornalistas Livres, que driblam o monopólio da informação.

Depois foi a vez da fundadora do blog Socialista Morena, Cynara Menezes. Usou também de sua trajetória pessoal para mostrar que a imprensa na internet é o caminho para aqueles que procuram fugir do tradicional. Cynara defendeu que o jornalismo, livre de posicionamento não existe e que se orgulha em dizer que seu antigo blog, agora site, tem ideologia socialista e comunista desde o princípio.

No encerramento das mesas do dia, o jornalista, professor e deputado federal Jean Wyllys (PSOL) citou o pesquisador em comunicação Pierre Lévy para reafirmar a importância do jornalismo de qualidade na manutenção da democracia no país. Em um momento de fake news, pós-verdade e erupções sociais, Jean afirmou que os jornalistas são como “arcas” que irão mostrar o caminho a ser seguido em um dilúvio cada vez maior de informações nebulosas.

Com informações de Léo Costa (Jornalismo – 4º semestre, na Uni7)

Fotos: Daniel Pearl e Dênis Nacif

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